A Biblioteca Esquecida
O sol se despedia de Veridiana em tons de cobre e violeta, derramando sua luz mortiça sobre os tetos inclinados das casas que margeavam a Rua dos Sinos. Lúcia caminhava devagar, como fazia sempre àquela hora, quando a cidade parecia hesitar entre o dia e a noite, entre o que era real e o que apenas sonhava em existir. As pedras sob seus pés, polidas por séculos de passos apressados, guardavam um brilho quase líquido, refletindo o céu em fragmentos alaranjados.
Ela ergueu os olhos para os castelos que se erguiam ao longe, suas torres recortadas contra o horizonte como dedos ossudos apontando para as primeiras estrelas. Havia algo estranho naquela tarde — não conseguia definir exatamente o quê. As sombras projetadas pelas construções antigas pareciam mais longas do que deveriam, esticando-se pelas ruelas com uma lentidão que não condizia com o movimento natural do sol. Por um instante, Lúcia teve a impressão de que uma das sombras, a que se derramava da Torre Cinzenta, tremulou como um pano açoitado pelo vento — mas não havia vento algum naquele fim de tarde.
Sacudiu a cabeça, repreendendo-se pela imaginação fértil. Livros demais, dizia sua mãe. Histórias demais enfiadas naquela…
